domingo, 14 de março de 2010

Vida de Poeta

Eduardo Alexandre

Abandonar a arte
E ser capitalista corrupto,
Eles querem eu faça,
Eu seja.

Taí, vida de poeta o que é !
E se não fizer e não for,
O que é que ele é ?

Comuna safado;
Direitista extremado;
Socialista iludido;
Pior inimigo da democracia ?

O que é que ele é ?
Guerrilheiro armado
- Amado ?
Brigadista urbano;
Terrorista enrustido;
O que é que ele é ?

É sonhador,
É um doido.
Poeta danoso
Da marginália.
Um bruxo maldito da corte
De Matusalém,
Que ilumina um alô qual relâmpago.
Sacode
E sabe das forças do bem.

Perigo !
Te cuida, menino:
No verso tem um mal tem um bem.
Tem um eu tem um tu tem um eles,
Quem sabe, na tua, pra eles,
Eles não te querem também ?

Ao vento

Eduardo Alexandre

Desfolha a bandeira,
Poeta.
Canta ao vento,
Peito aberto,
Tua alegria incontida,
A dor,
O teu pesar,
Pra multidão que trafega
Ou caminha sem pressa
Na beira do mar !

Mostra firmeza na luta.
Labuta, sem nunca cessar.
Tua verdade é imensa.
Teu verso,
Sintético,
A existência ilumina
E ensina
Um novo pensar !

Canta, pois, poeta.
Que necessária é a canção.
Com sua esperança de festa,
Razão
Eterna
Do teu cantar !

Imposição do ser

Eduardo Alexandre

Verdade:
Albergues de mártires não há.
Nem alegria
Na história revertida depois.

Mesmo assim,
E pagando em dor a vida.
Verseja um canto o poeta
Rendido à imposição do ser !

Verseja
Numa contingência de ofício,
E diz
O que nem mais crê.

Sede assim, poeta
Vive o esplendor do belo;
Canta
A esperança no será.
Serás
Mártir no silêncio das palavras
Feliz,
Sem teto,
Na ingratidão dos mortais !

É duro,
Mas martelas.
Versejas:
Desnudando o homem;
Desvendando a vida.
Trazendo à cena o encanto,
A magia;
A crença num belo dia !

Beira mar

Eduardo Alexandre

Sua vinda
Para nós é alegria
Poeta
Venha se molhar conosco
No nosso canto, poeta
Sujo de suor e vento
Nessa brisa de beira-mar
Nesse sol
Nessa luta infinda
Pela justiça do dia
Poeta
Do hoje
Do aqui
Do agora
Do verso que arrebenta

Na memória eterna
Do nosso muro
O nosso eu
Que implode e explode
Na onda que quebra
Na beira-mar !

Venha se molhar, poeta
Venha se molhar
Conosco nesse canto
Nessa luta
Nesse gesto
Nessa mostra
Muito louca
Nesse circo
Nessa vida
De espinhos
Amor e flores
Dessa minha canção
Colorida
De um alô
Cheio de graça
Do palhaço
Do pintor
O escultor
Entalhador
Da assombração
Do verso maluco
Disco voador
Da ilha de Aquarius
Que trouxe essa dita
Tão dita
Maldita
Tão nina,
Menina
Amada
Morena
Selvagem
Galeria do céu
Do índio Poti !

Canção Brechteana

Eduardo Alexandre


Quando os versos se fizerem escassos,
Quando a voz se fizer omissa
Ou ébria,
Guia-me de novo ao caminho da arte.
Faça-me rever os mestres;
Ouvir as mais ternas canções;
Caminhar entre as criancinhas.

Quando não mais for de esperança o meu canto;
Quando não mais servir de alento o meu verso,
Ordena-me então que pare:
Reveja o quadro sócio-econômico da gente;
Reviva a sua cultura;
Analise a sua praxis política.

Quando não mais for necessária a canção;
Quando os tempos forem chegados;
Permita-me então que pare.
Descanse nos braços dos meus amores
E que mesmo para deleite
Continue, eu
A escrever meu canto !

Galeria do Povo - Chamamento

Marcus Ottoni

QUE VENHAM
AS RENDEIRAS
OS CANTADORES
OS MEUS AMORES
VOCÊS PINTORES
OS TROVADORES
OS CANCIONEIROS
O POETA URBANO
O POETA RURAL
O SANFONEIRO
O SAXOFONISTA
O PISTONISTA
VOCÊ ARTISTA
ALMA DO POVO
REFLEXO
AMPLEXO
HOMEM SEM NEXO
ANEXO
O NOME
O CORPO
A VOZ
A MANIFESTAÇÃO !

Boca de Forno

Eduardo Alexandre

(...)

A paz se fez na avenida
Na praça a democracia surgiu
Ninguém pagou pra ver o palhaço
O circo também saiu

Os justos encontraram conforto
Todas as mães sossegaram

Os urubus não desceram pro pasto
O girassol não morreu

Pôs-se o sol num horizonte
Num outro a lua nasceu

- Boca de forno !
- Forno !
- Tirando bolo !
- Bolo !

... e se fez festa
Cantaram as crianças
os passarinhos
Ouviram-se as flautas
os oboés
o sono dos que morreram

Cantaram as juritis
as pombas-rolas
Saiu da gaiola o canarinho !!!


quarta-feira, 10 de março de 2010

Meninos & Meninas, aos versos

Meninos & Meninas

da aldeia do maioral Potiguassu

lugar comum é pouco

prá programação divulgada pela UFRN e FUNCart

R.I.D.Í.C.U.LA!!!!

neg-ócio é esperar as declarações

do capitão-equivocado-mor e dar gargalhadas entre lágrimas

esse programa é déjà vu por demais

No caso, a incompetência

vem de mãos dadas com a falta de imaginação.

Pioritário:

os poetas (antes anárquicos) estão capengas da tutela oficialesca

e dos restos & raspas pagos meses a fio.

Donde vale roçar a língua de Camões:

“É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder”.

Saudade passadista Rimbaudiana, quando:

“A poesia não voltará a ritmar a ação;

ela passará a antecipá-la”.

O homem das “Flores do Mal” adverte:

“Todo o homem saudável consegue ficar dois dias sem comer

- sem a poesia, jamais”.

Culminando na máxima do Maiakovski

“Sem forma revolucionária não há arte revolucionária”.

Plínio Sanderson

botando o bloco na rua...

prefiro o verde

da fada do absinto


BIBLIOTECA PÚBLICA ESMERALDO SIQUEIRA COMEMORA O DIA DA POESIA

Dia 14 de março se comemora o Dia Nacional da Poesia. O dia foi escolhido para homenagear o “poeta dos escravos” Castro Alves, nascido no dia 14 de março de 1847 na Freguesia de Muritiba, na Bahia (atual município de Cachoeira) e faleceu em Salvador em 6 de janeiro de 1871. Castro Alves lutou insistentemente pela abolição da escravidão e foi um grande defensor do sistema republicano de governo, onde o povo elege seu presidente através do voto direto e secreto.

Para comemorar o Dia Nacional da Poesia, a Biblioteca Pública Municipal Esmeraldo Siqueira, da Fundação Capitania das Artes - Funcarte, preparou uma vasta programação que inicia nesta segunda, 8. Nos dias 8, 9, 10 e 11, das 9h às 11h em várias escolas públicas municiapais, haverá contação de história para as crianças narrada por funcionários da própria biblioteca. Na sexta-feira, 12, às 9h, a contação de história para o público infantil será na Biblioteca da Funcarte. No mesmo dia, das 15h às 18h, no auditório do Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão, será ministrado um mini-curso sobre “Clássicos da Poesia Potiguar” pelo Professor José Augusto Costa Júnior.

No dia 14, a programação terá início às 15h, na Praça do Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão com Varal Poético: exposição de Cordel, exposição de livros de poesia do acervo da biblioteca Esmeraldo Siqueira, exposição de sebos. A programação conta também com homenagem ao poesta José Saldanha, Mesa Redonda sobre “A Poesia Popular no RN”, com a participação de Francinete Oliveira, José Lucas de Barros, Gutemberg costa, Paulo de Tarso Correia de Melo e José Augusto Costa Júnior, apresentações dos poetas da Sociedade dos Poetas Vivos e Afins – SPVA, Show com Geraldinho Carvalho, Trope Trupe, declamação livre, show lítero-musical com o poeta Paulo Varela e show com a banda Rosa de Pedra.

Cronograma de Atividades

08/03 – 09h às 11h : Contação de história na escola municipal Antônio Campos (Mãe Luiza)

09/03 - 09h às 11h : Contação de história na Escola Municipal Mário Lira (Bairro das Quintas)

10/03 - 09h às 11h : Contação de história na Escola Municipal 4º Centenário (Petrópolis)

11/03 - 09h às 11h : Contação de história na Escola Municipal Mereci Gomes ( Passo de Pátria)

12/03 - 09h às 11h : Contação de história para o publico infantil na Biblioteca Esmeraldo Siqueira (Ribeira)

15h às 18h – Mini-Curso “Clássico da Poesia Potiguar” (Auditório do Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão) – ministrado pelo Professor José Augusto Costa Júnior.

14/03 – Local: Praça do Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão (Ribeira)

Varal Poético “Exposição de Cordel”

Exposição de livro de poesia do acervo da Biblioteca Esmeraldo Siqueira.

Exposição de Sebos

Tapioca com Poesia

15h00 às 17h – Mesa Redonda “A Poesia Potiguar no RN”. Palestrantes: Francinete Oliveira, Jose Lucas, Gutemberg Costa, Paulo de Tarso Correia de Melo: Mediador: José Augusto Costa Filho.

17h – Apresentação dos Poetas da SPVA

17h45 – Show com Geraldinho Carvalho

18h15 – Tropa Trupe

18h45 – Declamação livre (delimitação de dois poemas por declamador)

19h15 – Show Lítero -Musical com o Poeta Paulo Varela

19h45 – Rosa de Pedra

20h45 - Encerramento


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Assessoria de Comunicação da Funcarte
Tiana Costa - 9121 9665
Tatiana Tarquino - 8819.3156
Tel: (84) 3232.8836

Amor em Paris

Cláudia Magalhães

Clara está no tempo dos amores mal curados, onde o gozo é controlado por um anjo ou demônio, e este ou aquele, deitado a seu lado, com a mão esquerda torna febril e trêmula a sua fenda e com a direita injeta em sua mente doces recordações do passado, paralisando-a por completo.

É meia-noite. Há horas, ela permanece imóvel em sua cama, lugar onde dormiu por seis anos com um amor que, por ingratidão e egoísmo, há uma semana não está mais ali. Algo difícil demais para se compreender e que tornam loucos os que andam pela terra.

Ela leva a sua mão em forma de concha até o sexo, pois é assim que rezamos para o amor, e sonhando com os míseros segundos em que tocaria as estrelas, tenta acariciar sua lua úmida até ela tornar-se, novamente, seca, fazendo girar mais rápido o mundo, mas as lembranças do passado estrangulam seus dedos, enchendo-os de verrugas e vergonha.

A enorme vontade de tê-lo, de possuí-lo, a faz perder o juízo. Vou à Paris. Vou em busca de Vinícius!, pensa. Segundos depois, ela enfrenta descalça as ruas desertas e o frio da madrugada, usando apenas seu vestido longo, florido e que, por vezes, usava como camisola. Seus gritos entram pelas frestas das portas e das janelas quebrando o silêncio que comanda a decência. Quando um ou outro a pergunta, O que aconteceu, mulher?, ela responde, Vou a Paris. Vou em busca de Vinícius!, e segue andando pelas ruas do outro lado do mundo como se fosse a dona delas.

Pergunta à todos os que cruzam seu caminho por um homem alto, barbudo e grisalho e, diante do silêncio, ela responde, Ele está em Paris! Ele está me esperando em Paris! E segue falando da importância das mãos, pois nelas moram as vontades mais urgentes, falando da imensidão do mundo e do desejo que tinha com o homem amado de morar na Cidade dos Sonhos, para novamente, falar das mãos e do desejo, repetindo, incansavelmente, as mesmas palavras.

Tenta, por vezes, se calar e escutar as histórias sem pé nem cabeça dos homens, mas ela tem pressa em se livrar dos sofrimentos da vida e segue sem escolher o caminho e sem saber ao certo quem ela é, molhando os pés na lama, acreditando que é o mar, vivendo de esmolas, bebendo cachaça ou conhaque, pedindo a bênção a Deus que segurando-lhe o juízo não precisa fingir que lhe deu, até adormecer nos bancos das praças ou nas portas das igrejas e sonhar voando.

Uma hora depois que ela partiu, Vinícius, arrependido de mais uma vez tê-la abandonado, entra no apartamento. Vou pedir perdão e milhões de vezes direi que a amo e nunca mais a farei chorar!, pensa procurando-a com o peito sufocado pela saudade, mas é tarde demais.

Ele a encontra no quarto com a alma liberta. Ora caminhando como uma rainha, ora curvando-se e implorando coisas ao vento. Minha carne foi criada do pó impuro. Meu cérebro, uma grande duna, com a memória e os desejos dos ventos, encheu de mel minhas veias, entupiu com os ferrões das abelhas minha garganta e, de tanto morrer, gerou em meu peito um enorme coágulo chamado coração.

Uso salto, quero meus pés com gosto de rua na direção dos abismos. Há muito tempo, o amor me ensinou a cair,
diz. Ela olha para ele, mas nada vê. A sua carne está acorrentada pelas vontades de sua alma, que cansada de sofrer liberta-se de si mesma, vai a todas as partes do mundo e confunde-se com outras.

Desatenta e livre, muda de vontade de uma hora para outra, se reinventa a todo instante. Suas pernas encontram becos escuros, lama, sargaço, o mar e a imensidão das águas, enquanto sua cabeça de lua abraça o Cruzeiro do Sul, a Ursa Maior, as Três Marias, e não somente elas, mas todas as constelações.

Múltipla, infinda, ela é a dama, a mendiga, a poeta, a vítima, a algoz, a que ri e chora ao mesmo tempo. Ela é Clara, a sua Clara! Ele observa a mulher que ama, que partiu sem volta para a cidade dos sonhos, deixando em seu peito uma chuva que nunca vai parar e os seus olhos enchem-se de lágrimas.